Prosa & Poesia – José Roberto Vieira

Perfil: José Roberto Brasílio Vieira é aluno de Letras no Mackenzie e escravo da tecnologia, apesar da curiosa e quase doentia fixação pelo medievalismo. É co-autor do rpg Éride e auto do rpg Taenarum, atualmente escreve o romance “Nove Reinos” e tenta não morrer enquanto pesquisa para seu T.G.I.

Ele espera que você goste de seus escritos, e aguarda seus comentários.

Ele também espera escrever uma biografia melhor para si mesmo….

Ele também publica suas obras no site www.nexusbr.blogspot.com

A repetição inicial do “ele” para referir-se a si mesmo não passa de um traço estilístico.

Periodicidade: Mensal

08/09/2008

Barco a vapor

Não que eu saiba exatamente o que estou fazendo, mas digitar faz um bem danado ao coração, e os médicos dizem que ele (o maldito coração!!!) é parte importante do todo que me compõe.

Se bem que, ultimamente, não tenho sentido muito minha falta, explica-se: na maioria as vezes estou ausente da minha própria vida, logicamente, assisto a tudo de camarote, só que, nas poucas vezes em que sou convidado a participar, sou, efetivamente, um mero coadjuvante na existência.

Perene é toque de teclado, imortalizado pelos blogs da teia, nenhum toque, nenhum pressionar, é tão importante quanto o primeiro: é ele quem diz para onde vai o conto/ crônica, é ele o inciviso e dominador guia das sendas contais (i.e : relativo à conto1…). É a maldita primeira palavra que levará o leitor à nevegaão do capitão, e, nesta cândida correnteza, espera-se uma viagem sem volta ao mundo imaginativo de criadores sem muita noção de gramática, e uma pitada insalubre de maluquice.
Nada contra, é claro, eu mesmo, muitas vezes, mergulho neste simpático lago de artimanhas literárias e me deixo levar por este outro lado, bizarro, criador, morto, fedido e impossível de se entender.
Navego em mim mesmo como se fosse um barco à vapor naqueles típicos rios americanos; descubro que, no fim do rio, só há duas possibilidades, frustrantes ou engraçadas.

A primeira delas é voltar: subir o rio na contra-margem, e, provavelmente, bater no iceberg, encalhar, ou atracar no porto da sanidade. Esta opção nunca me agradou e sempre me pareceu simplista demais. Esta, é claro, é a preferida entre 9 a cada 10 sóbrios ou equilibrados.
Meu caso, infelizmente, está na segunda opção: seguir adiante. Enfiar o filho da puta do barquinho naquela porcaria de rio desajustado que não aceita muito bem nvegantes, e cujas ondas batem na orla e voltam com força total. Nenhum dos meus barquinhos afundou até agora.

E isso me assusta, ah como me assusta! Imagine seu barquinho nos rios da loucura debatendo-se contra vagalhões imensos e pedras rotundas até que não sobre muita coisa. Cujo, cuja, de repente… não.. nada disso… O maldito barco só rebenta derrepentemente num segundo entre milésimos, dividido em centésimos, e, quando o capitão vê, é tarde demais. O caitão afunda com eu navio, e não há nada que se possa fazer.

Motim! Grita a alma perturbada de um escritor frustrado. Mas não se engane, ele é tão capaz de amotinar quando uma codorna de vestir armadura de cavaleiro, o escritor é fiel ao barco, e não se deixa levar.
Exceto, é claro, quando sobreviver o leva à melhores histórias: e estas, insistem em ser contadas.

Khalin Pandora (Um velho amigo de José R. Vieira)

1 Termo inventado por um autor bêbado…

01/09/2008

Paralelos

Acordar. Banho. Café-da-manhã. Despedida. Um dia comum. Que merda.
Sim, todas as pessoas comuns fazem isso, exceto R. Ele não é um homem excêntrico, mas calcula possibilidades infinitas dentro de situações corriqueiras, enfiadas em paradigmas concêntricos dentro de sintagmas malucos. Geralmente olha para o chinelo em frente à cama e põe-se a pensar “Puxa, o que aconteceria se eu não colocasse o chinelo hoje?”, ou, “E se eu não tivesse chinelo?” Muitas vezes, R se pegava devaneando sobre isso, e acabava por mistificar pequenos assuntos.

Nesse dia em especial, o sábado, R levantou e colocou os sapatos, pensou no que aconteceria se não o fizesse, e teve medo dos resfriados e outras doenças rastejantes –hipocondríaco? Não, não era. R abriu a janela e olhou para o horizonte, imaginando como seria voar. “Os pássaros têm sorte.” Tomou o resto do leite direto da caixa e foi para a vida, interpretando-a da melhor maneira possível.

Todo o dia comum de R foi marcado por essas excursões às realidades alternativas, lugares onde ele tinha descido o prédio pelas escadas, ao invés de usar o elevador. Viu quando um carro passou pelo sinal vermelho, e ficou imaginando o que aconteceria se o carro batesse, ou se um guarda estivesse no cruzamento. Não imaginou seu próprio atropelamento. Mas imaginou um suicídio revoltoso permeado de cruz-credo e ave-maria. Seja lá o que isso signifique…

Teve até a vez em que encontrou, por acidente, sua ex namorada, Márcia. Pensou nela como uma possibilidade, viu um casamento que não aconteceu, filhos que não existiram, sogra, churrascada, barriga de cerveja, aposentadoria, INSS. Ela já tinha virado a esquina, com um seco “tchau” , e ele com um “té mais”, quando pensou no que teria acontecido se eles não tivessem namorado. Não existiram possibilidades que ele acabara de inventar. Nem existiria tchau, nem sogra, nem barriga… nem o resto que jamais existira, exceto dentro de si mesmo numa mente vertiginosa e avassaladora.

Nada existiria. Tudo era possível.

O tempo, devorador, corrupto, irrefreável, sincrônico.

Chegou ao meio dia com orgulho de cumprir seu papel na sociedade transmórfica.. R tinha atravessado a rua para comprar jornal, viu que o garoto da banca não devia ter mais que dezessete anos, pensou no que ele se tornaria daqui a algum tempo, fez uma linha temporal de sua juventude com amigos, sem amigos, e depois criou uma chance do garoto se tornar inteligente, quando mostrou a ele o livro que carregava.

R deixou a imaginação de lado, quando começou a chuva. Mas, concentrou-se muito para não pensar no que aconteceria se um raio o atingisse: os poucos amigos visitando-o no hospital, a namorada-inexistente enviando flores, o sobrinho gordinho e mirrento roubando seus presentes. Até pensou no caso que poderia ter com a enfermeira, se ela fosse bonita.

Tudo em sua vida não passava de “se”, e não era muito o que realmente “era”.
R voltou para casa após sua corrida matinal, fazia isso durante o fim da tarde, não gostava da manhã, onde nada tinha acontecido, nem tinha a chance de ter acontecido. Só quando ligou o chuveiro é que percebeu seu erro: não comprara pão.

Mas, o que aconteceria se tivesse comprado?

23/08/2008

Corvo branco

O corvo branco era um anseio.Uma vontade de alguém em fazer alguma coisa.Lógico, esse corvo branco ao qual me refiro não é o mesmo que o da outra história, esse é um corvo branco bem porcaria.Tem olhos espertos e vermelhos, penas brancas e uma voz irritante.
Pronto, ele já está descrito.

Você já viu um corvo, não é? Então faça o favor de imaginar um Corvo branco, e não reclame comigo, eu escrevo do jeito que quiser!

Esse corvo branco pertence a uma menina de longos cachinhos cor de ouro, ela vive na rua das Figueiras No 180, casa 2.O único desejo dela é ter uma casa própria, e para isso ela vive apostando na loteria, mesmo sendo contra-lei crianças fazerem apostas.

Mas ela não é importante, não muito, quem importa para nós é aquele maldito corvo branco do começo da história, por que a função dele é ser um anseio, uma vontade, e o que a menina tem é um desejo.Isso que dizer que se o corvo branco não convencer a menina a ter um anseio pela casa o corvo branco vai fazer companhia para as pessoas que passam a maior parte de seu tempo nos cemitérios… e eu não estou me referindo aos góticos ou aos coveiros…

O corvo branco pousa no ombro da menina “por que quer uma casa?” diz ele com a voz cantante.

“Por que eu quero morar nela” responde a menina de um jeito meigo das meninas de histórias infantis.

“Por que a casa guarda lembranças”,

“Mas serão lembranças de outras pessoas, daquelas que já viveram na casa antes de você” diz o corvo branco.penas eriçadas, olhos escurecidos pelo anseio próprio de viver.Um rato com asas de libélula aparece ao seu lado, este é o anseio do corvo, viver.

“Tudo bem que sejam” a menina colhe uma flor do jardim sujo “eu posso por novas lembranças nessa casa” ela sorri “ são como um jardim, posso plantar flores novas em velhas terras.” O corvo começa a se desesperar, o rato com asas tem um ar de desprezo para ambos.Nasceu só para morrer.

“Bela menina, não seria melhor ter um anseio pela casa? Para de sonhar com ela e apenas deseje…seria feita de sonhos a casa mais bela da cidade.A casa que não existe.” O corvo branco agitou as asas e empurrou o rato sorridente para o chão.Saiu do ombro da menina e foi ciscar as minhocas vertebradas que tentavam evoluir.Essas eram o anseio da terra, servir ao homem.

Um condor com patas de leão sobrevoou a casa da menina, aquela casa que ainda não era sua mas viria a ser se o corvo falhasse.Agora estava entendido, a menina já tinha o dinheiro para comprar a casa, e se fizesse isso estaria realizando seu anseio, logo o corvo branco desapareceria.Foi uma explicação bem ruizinha, já que a função do corvo é justamente essa.Mas algumas pessoas, ou animais imaginários, ou criaturas de fábulas, simplesmente não entendem que quando sua função se completa você é descartado, e isso se chama capitalismo.Por isso o corvo deveria ter feito uma universidade, ou curso técnico, para continuar no mercado de trabalho como um “auxiliar de anseios Junior” ou um Trainne” …viu só o que dá não estudar?

“Menina” disse o corvo branco “Pra que uma casa? Aqui você vive em contato com a natureza, recebe todos os dons naturais.em uma casa você vai estar longe disso tudo.”

“Estarei protegida” ela respondeu. “ Seus olhos escirecidos não me enganam.”

O corvo não sabia o que era”escirecidos’ pensou tratar-se de “escurecidos”, achou melhor não brigar.

“Você é o meu anseio né?” perguntou a menina de cachos dourados. “o meu desejo de fazer algo.”- o corvo respondeu com extrema melancolia, apoiou-se em uma parede e cobriu os olhos para disfarçar as lágrimas “ Sim pequena inocente, sou o anseio de vossa pessoa, aquele que deseja um teto de pedra e paredes de tijolos, por favor continue a desejar!!!”

A menina sorriu. “eu sou humana, é natural para nós desejarmos aquilo que não podemos ter, se eu tivesse uma casa desejaria uma rua, se tivesse uma rua desejaria uma cidade…”

“E o ciclo nunca se fecha” disse o corvo despertando da melancolia “ Mas vou sumir…”

“Não, não vai.Mesmo que eu tivesse todas as coisas ainda me faltaria algo.” Respondeu a criança com voz adulta. “Se eu tivesse tudo, realizasse todos os meus desejos, meu único anseio seria desejar alguma coisa…”

E ambos partiram, caminhando pela rua.A menina com seus cachos douradose o corvo com suas penas brancas…

1 Comentário »

  1. thaina Disse:

    meu deus….seu explicação pra issu!!
    issu diz td oq eu sintuu juroo!
    ta de parabéns José Roberto Brasílio Vieira!


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